castelo-alegrete

Chama-se Palmira e tem um café em Alegrete com o seu marido João.

Faz a melhor língua estufada de porco do mundo.

O João, de apelido Delicado, faz jus ao nome de família; é um misto de delicadeza, marotice e discrição. Lá atende o telefone depois de muito tocar. Feitas as introduções, pergunto-lhe:

  • Tem língua? ao que ele me responde – Então como é que haveria de estar a falar consigo? Vá, venha, a que horas chegam?

É a deixa para a felicidade. Há coisas que de tão boas e plenas parecem fazer-nos saltar o coração pela boca. Felicidade por sentir que está um calor intenso e que gosto disso, que o dia está a cair e que o meu encontro está marcado com uma travessa de língua de porco estufada com batatas fritas da Palmira.

Nada iguala a felicidade da antecipação do prazer, essa é que ela é.

Depois de umas belas azeitonas e de pão, chega a travessa de vidro com a dita; de um lado um monte batatas fritas, também elas, muito provavelmente, as melhores do mundo, estaladiças e moles por dentro, tão bem fritinhas que só Deus sabe, do outro, a língua, cortada em fatias, envolta num molho castanho dourado e espesso mas não em demasia, tão macia que se desfaz na boca.

Foi com vagar que comemos tudo e limpámos a travessa.

Depois do café e da aguardente,  de ânimo elevado, fui ter com a Palmira para que desta feita me desse a receita. Com olhar cúmplice e depois de me aplicar dois beijinhos repenicados e umas festinhas no braço (o que é que uma pessoa pode querer mais na vida?), leva-me para a cozinha e diz-me aquilo que eu queria ouvir:

  • Maria, as coisas boas são simples. Tome lá nota:

Cozem-se as línguas na panela de pressão com sal. Num tacho, faz-se um puxadinho de cebola e alho bem picados, junta-se um bocadinho de colorau e quando a cebola estiver molinha, refresca-se com água, vinho branco e caldo de cebola (diz ela que é só caramelizar a cebola e já está ). Deixa-se ferver o molho em lume brando e vai-se vigiando. Retira-se a pele às línguas, fatiam-se e juntam-se ao molho.

De vistas largas e desafogadas, Alegrete é uma bela e pacata terra do concelho de Portalegre, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede a 500 m de altitude.

Não vale a pena dizer que merece uma visita. Merece muitas e repetidas.

 

Maria Schiappa

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