Já ultrapassei o meio século e não estou a passar pela crise da meia idade.

Então qual é a desculpa para estar a usar, pela primeira vez, uma scooter em Lisboa?


Como qualquer lisboeta, ando agastado. Cansado de guiar no meio de tanta obra, do pó, das cada vez mais caóticas filas de trânsito, de ruas que perderam o sentido, de faixas que o estrangularam, dos lugares de estacionamento que desapareceram, enfim, de todo um caos para que, confesso, não estava preparado.

Como tenho a vantagem de poder escrever num blogue que tem até alguma dinâmica e reconhecimento, é por aí que extravaso alguns dos meus desaforos e desatinos. Na verdade, nunca perdi a noção da minha cidade, sempre a olhei com a ternura de quem a ama mesmo que a abomine por esta ou aqueloutra razão, mas estes últimos tempos e acontecimentos foram demasiado penalizadores para quem vive na e a cidade.

Foi devido a um artigo sobre uma nova motoreta da Piaggio que escrevi no anterior Xá das 5 (agora VoiceBox) que os responsáveis pela marca tiveram uma ideia: que tal convidar este (e outros) meios de comunicação online para uma experiência, no mínimo, original?

E assim aconteceu!

trimm trimmm (imaginem um toque digital e moderno se faz favor)

Boa tarde, João. Lemos o seu artigo sobre o pesadelo de se guiar em Lisboa e reparámos que apontou a scooter como a solução óbvia para quem tem de se deslocar pela cidade.

Bem verdade! Isto está impossível e tal.

Pois então o que nos diz a um desafio? Propomos que utilize uma scooter Piaggio durante um par de semanas e que descreva a sua experiência. Que tal?

Opá, é uma ideia extraordinária. Mas tenho um problema: cheguei a esta idade vintage sem nunca ter conduzido uma scooter.

Sabe andar de bicicleta?

Muito bem!

Então não vai ser difícil: a Piaggio oferece-lhe uma acção de formação com a Prevenção Rodoviária Portuguesa em horário e local a combinar.

Pois então, está combinado e estarei no tal local!

A necessária aprendizagem. É que o pára-choques somos nós…

E assim foi e assim se fez. Desde Sábado que eu e a Mariza Figueiredo (do blogue High-Tech Girl) colocámos o capacete e acelerámos as nossas bem bonitas e muito sofisticadas Piaggio Medley 125.

A minha é azul, a dela é vermelha paixão e tem vidro protector. Esta primeira semana serve para vivermos os primeiros arrepios.

Combinámos estar mais tempo juntos na segunda semana para discutirmos aventuras, truques, processos e fórmulas.

DIA 1 - o levantamento

Após o almoço e a assinatura da papelada, fotografei a montada. Quando estava preparado para arrancar, confesso que com algum receio e tal, eis que chove.

Ora o Largo do Calvário está a modos que impraticável. Onde não há buracos, existem obras e pó, areia e lama, gravilha e, atenção, os malfadados e perigosíssimos carris de eléctrico. Decidi esperar uns minutos e beber um café.

A chuva abrandou.

Primeira etapa: apanhar a marginal, fazer a 24 de Julho, combater a confusão das faixas em Santos, olhar para o Cais do Sodré, os seus pilaretes e demasiada informação vertical e horizontal, tremer o corpo naquele piso da Ribeira das Naus, conseguir atravessar o Terreiro do Paço sem mandar abaixo uma dezena de turistas, atravessar o Campo das Cebolas e olhar para os navios atracados no quase (falta o quase) pronto novo terminal de cruzeiros, passar por Santa Apolónia, subir e descer o primeiro viaduto e, finalmente mais calmo (era fim de semana), a continuação do último par de km para chegar ao destino.

Ufa! Está quase.

E, num repente, o pânico: o destino fica numa calçada bastante íngreme e pouco dada a principiantes.

Conseguiria subi-la e, pior, estacionar a Medley?

CONSEGUI! E , aliás, é o local onde pernoita. Mas é difícil, com buracos e tal.

DIAS 2, 3 , 4 , 5 , 6 e 7 - o período de aprendizagem na vida real

Começa-se a medo, com as antenas no máximo e o factor cagaço a dominar todas e quaisquer manobras.

A Medley 125 é uma motoreta fabulosa e vou-me apercebendo das mais valias a cada percurso que faço, cada subida e descida, curva e contra curva, aceleradela e travagem.

Uma pessoa vai até ao rio só porque sim.

E confesso: sinto um misto entre o entusiasmo juvenil e a crise da meia idade. Passo a explicar:

Se me convidam para ir aqui e ali, o meu primeiro pensamento é “vou demorar por causa do trânsito” logo seguida por “e onde é que se estaciona?”. Para um lisboeta, estas são actualmente as duas maiores dores de cabeça e as obras faraónicas não melhoraram a eficácia do caos, muito pelo contrário, adensaram as filas, pararam artérias e, pasme-se, criaram problemas graves à circulação de veículos de emergência… em situação real.

Uma scooter passa por estes transtornos como se nada fosse, mesmo que nesta primeira semana eu ainda faça o papel do maçarico que não percebe nada disto, ou seja, fico parado na fila atrás dos automóveis e só arrisco uma ultrapassagem depois de um elaborado estudo de cálculos matemáticos, trajectórias e possíveis conclusões.

Mas já fiquei viciado na grande, enorme vantagem de uma scooter em ambiente urbano: vou a todo o lado e estaciono bem perto dos locais.

É muito fácil guiar a Medley. E atenção, falo com enorme “conhecimento de causa”, pois antes dela experimentei duas scooters de 50 c.c. para uma rápida aprendizagem lá com os pros da Prevenção Rodoviária. Portanto, esta é a minha terceira mota (!) o que já dá para elaborar uma crítica.

Estava a dizer que é fácil guiar esta Piaggio e há razões para isso: a ciclística (sim, já aprendi) é topo de gama, tudo é moderno e bem pensado. A mota é equilibrada em todos os aspectos e isso nota-se nas travagens em apoio em que nunca senti um deslizar, uma derrapagem, nada.

O motor é, para mim, potente q.b., os 12 cv chegam e sobejam para o meu tipo de utilização, mas é o ABS e o Start/Stop que, quanto a mim, são mais que grandes ajudas à condução (e ao consumo): garantem grande conforto de utilização.

Ainda só apanhei um ligeiro cagaço na subida da Dom Rodrigo para o Valsassina pois alarguei demasiado a trajectória e aproximei-me bastante do lancil, mas um toque no travão traseiro evitou qualquer percalço.

Resmas de papel, agrafos e outro material cabem perfeitamente debaixo do assento

Tenho andado a ler sobre outras 125 e esta Medley tem um factor plus que é muito, mas muito importante: o espaço debaixo do banco serve mesmo para arrumar um par de capacetes, o que deve ser caso único na sua gama. E este espaço, em vazio, dá para levar mochilas com computadores, compras de supermercado, resmas de folhas A4, enfim, muito, muito espaço.

Antes que me esqueça, quero deixar aqui um alerta: as calças de bombazine escorregam um pouco no banco. Convém ir de ganga ou outro material. Por falar em banco, é largo e fofo. Mas talvez um pouco alto para malta de 1,70 para baixo, o que obriga a esticar o pé quando estamos parados.

Estou francamente a adorar esta experiência e isto não vai terminar bem no Sábado, 27.

E agora? Tento levar a cara metade às costas?

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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