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Conduzir um carro é um processo que muitos tentam colocar na zona do talento. Sabem, aquela zona meio cinzenta, onde o sucesso é fruto duma inevitabilidade ao nascimento, ao invés do esforço pessoal e do treino diário. Pois que não. Como todas as acções motoras e que exigem concentração máxima, não se nasce com uma predisposição para tal. São precisas horas e horas e horas e horas e horas (…) de repetição de processos para que a condução se torne fluida, confiante e sem risco.

Preparem-se para "queimar" pestanas...

Preparem-se para “queimar” pestanas…

Para falarmos do jogo em análise – Dirt Rally – convém colocarmos a analogia virada para os videojogos. Ou seja, aqueles que preferem uma experiência mais arcada, com maior foco na velocidade, na reacção e, convenhamos, na sorte, mais vale pararem por aqui a leitura. Este jogo é frustrante, difícil de aprender e mais complicado ainda de aperfeiçoar. Não vão ganhar à primeira, à segunda e talvez nem à quinta corrida. Vão ter que suar, dar o máximo, aprender cada curva e troço dos percursos para conseguirem triunfar. Tal como a condução real, na verdade.

 

É que Dirt Rally é uma simulação extremamente apurada do que será uma temporada no World Rally Championship. O modo carreira permite-nos adquirir mais de 40 carros de diferentes épocas, cujos funcionamentos e particularidades nos obrigam a colocar em perspectiva a nossa condução. A abordagem a um carro de 1970 nunca poderá ser a mesma a um da presente década e Dirt Rally castiga-nos, se assim o acharmos. Esta curva de aprendizagem obriga o jogador a estar extra concentrado, a conhecer cada máquina e a desenvolver uma relação de proximidade. Quase como se fosse um piloto a sério.

São raras as rectas calmas.

São raras as rectas calmas.

Um pouco à imagem dos pilotos controlados pela A.I. Não perdoam, não facilitam, não perdoam. Um descuido e é vê-los a ultrapassarem-nos, ficando nada mais do que a poeira dos seus bólides. Para isto, temos o apoio indispensável do co-piloto, que nos vai dando deixas visuais no topo do ecrã, ao mesmo tempo que ouvimos as suas indicações. Os diversos trajectos que variam desde os verdes Alemães às estradas brancas na Suécia trazem as suas surpresas – desengane-se se julgar que são todas iguais. Há curvas perigosas a cada esquina, prontas a desafiar os nossos reflexos. Não vale a pena passar demasiado tempo deslumbrado com a qualidade gráfica dos cenários, e a mesma é elevada.

 

Porém, mais do que isso, há momentos onde é obrigatório arriscar. Dirt Rally brilha nesses momentos, onde a audacidade é recompensada com segundos extra na corrida. O próprio co-piloto lança-nos, em determinados troços, o repto: sejam corajosos. E Dirt Rally precisa, acima de tudo, de coragem. Não se enganem – o jogo é bom, talvez o melhor simulador de rallys no mercado actualmente. Tem todos os ingredientes: gráficos esplendorosos, sons o mais realista possível, jogabilidade acima da média, controlos apurados e ao milímetro, pistas difíceis, um modo carreira repleto de desafios a conquistar e uma escolha versátil e vasta de automóveis. Contudo, há algo que Dirt Rally não faz. Facilitar.

Curvas e contracurvas, impróprias para cardíacos.

Curvas e contracurvas, impróprias para cardíacos.

Para se divertirem com este título, precisam de estar prontos para dedicar algum tempo ao jogo. Não poucas vezes repeti ao longo da análise a necessidade do treino, repetição pouco inocente. A simulação reflecte, ao máximo, o desafio que os pilotos reais de rallys sentem. Nesse sentido, é o estado mais realista do que uma simulação deve ser. Contudo, nunca poderá ser um jogo perfeito. É demasiado restrito, demasiado exigente. Nem todos os públicos poderão divertir-se com Dirt Rally. A responsabilidade não é técnica. É puramente de nicho. Por isso, e concluindo: se é um jogo de corridas rápido, não será uma boa escolha. Se for fã da WHC e da adrenalina e esforço por detrás do Rally, então é um jogo obrigatório.

Carlos Duarte Mendes

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