A rede das redes sofre o maior e mais nefasto golpe da sua existência: a desconfiança do utilizador. A queda na bolsa é vertiginosa e o amanhã está envolto em polémica. Aguentaremos viver sem um Like?


É inegável a importância desta rede social, do efeito global que determina comportamentos sociais e económicos, de ser o veículo para uma mudança de hábitos sem paralelo na história da humanidade.

O Facebook é o Yin e o Yang da sociedade moderna. Se por um lado aproximou pessoas, possibilitou reencontros, fomentou negócios e acasalou humanos, por outro separou esses mesmos humanos, reforçou discursos de ódio e abriu portas a uma agressividade sem paralelo e, demasiadas vezes, ao abrigo de uma espécie de anonimato.

O Facebook, a par de outras redes sociais, é o nosso Big Brother, a Voz que ordena o comportamento da horda que acredita piamente no título de uma falsa notícia e que, automaticamente, querendo ser o primeiro a brilhar (mais uma vez “socialmente”), a repete como certeza da sua pretensa veracidade para que todos os seus contactos repitam o processo.

Mas o Facebook tem coisas boas: une pessoas com os mesmos objectivos por meio de grupos fechados ou abertos, impulsiona negócios que de outra forma nunca existiriam, encaminha tráfego para a leitura de blogues, canais de Youtube, acontecimentos, localizações, enfim, tudo.

O Facebook é omnipresente e omnipotente o que desagrada a gregos e a troianos.

Sempre houve vozes que se levantaram contra a rede pelos mais diversificados motivos assim como outras que apreciavam o derrube de muros até então intransponíveis.

A rede tem ferramentas extraordinárias como o programa que ajuda os sobreviventes de uma tragédia ou calamidade a comunicar com os entes queridos, o pedido de ajuda imediato para ajudar quem ficou sem nada, e tantos outros exemplos, mas todas estas sub-redes são feitas por… pessoas. E são estas que acordaram, finalmente, para o mundo real da total devassa da sua privacidade. E quem diz sua, diz dos seus e dos segredos que habitam as quatro paredes que julgavam herméticas.

Todos sabemos o que se passou com a Cambridge Analytica. Todos já lemos a justificação do todo poderoso Mark Zuckerberg (agora 7% menos rico, amanhã 10) e muito mais dados vão ser retirados debaixo de um tapete de pedras que escondem as muitas manhas.

Portanto, vou focar-me no futuro e daí a questão do título: e se acordarmos amanhã sem poder aceder à mãe de todas as redes?

Bom, vamos pensar nos mais básicos comportamentos humanos que têm usado a rede para se esconder fisicamente dos oponentes, reais ou não. A nossa espécie está longe de ser perfeita e basta olhar os comentários de um qualquer post que toma partido por este ou aquele político, clube de futebol, juiz desembargador, música vencedora de um certame ou, num degrau abaixo, da vida das personagens da novela ou de quem está enclausurado numa casa/concurso televisivo, para lermos com horror o nível de agressividade, desconhecimento e desorientação espacial fora os inacreditáveis atropelos linguísticos. O mundo está verdadeiramente doente e nós alinhamos com vontade e alegria a cada pedido, a cada demanda.

Com o fim do Facebook (e das redes que lhe estão associadas porque e afinal o dono é o mesmo), as pessoas terão de reaprender a viver em estado físico /real / humanóide o que vai obrigar a uma extraordinária mudança de hábitos. Vejamos alguns exemplos:

Caso 1 – o dizer mal dos outros

imagem The Telegraph

Na rede é tão fácil desdenhar, criticar e dizer mal de terceiros como beber um café pela manhã. Os chats privados são um manancial da verdade absoluta e uma estupenda caixa de Pandora para – uma vez abertas ao público – terminar, com muito ou pouco alarido, relações que até hoje foram estáveis e risonhas.

Portanto, como continuar a dizer mal de sicrano ou beltrano? A legenda explica (e na falta dela, basta ver os dirigentes desportivos e jogadores da bola a tapar a boca enquanto falam): aproximar a boca o mais possível do ouvido do interlocutor, fazer concha com a mão e colocá-la o mais junto possível dos lábios e na face que dá o lado ao mundo. Atenção, é imperativo sussurrar!
Problemas: perdigotos, a invasão do espaço íntimo, o desinteresse pelo assunto.

Caso 2 – espalhar uma “Fake News”

imagem The Telegraph

Como disseminar uma notícia falsa sem a ajuda do filtro que a rede proporciona? Convenhamos que nunca mais será igual devido à alteração do processo. Se no Facebook bastava um post com um título apelativo (a famosa e ardilosa técnica “clickbait”) para chamar a atenção e provocar a imediata reacção no leitor que deseja ser o primeiro a republicar o que nem leu, sem a ajuda online tudo isto se complica.

Portanto, há que regressar ao antigamente, escolher alguém que sabemos mais crédulo, contar a invenção como se tratasse de um facto e deixar a magia acontecer. O problema é que tudo isto demora muito tempo, principalmente numa sociedade que tem de reaprender a estar fisicamente próxima do seu semelhante e… rapidamente.

Problemas: o tempo do processo.

Caso 3 – A agressividade

imagem The Telegraph

Ui, este é o campo que vai sofrer a maior mudança. Quando fomos pequeninos, havia sempre um ou outro vizinho (ou familiar) que nos tirava do sério. Antes da super-protecção parental ser a norma, era cada um por si – desde cedo de manhã ao final da tarde – e tínhamos duas hipóteses: ou havia estalada ou vetávamos o inimigo ao silêncio fazendo lobby para que os nossos mais próximos nos secundassem.

E o que acontece na rede? Injúrias, desabafos, gritaria, ameaças, mas tudo bem filtrado pela parede virtual que protege quem grita de ser visitado para, digamos, uma conversa mais séria, o antigo e dirigido “vamos conversar lá fora”. Isto dos confrontos, principalmente reforçados pela horda que se diz nossa “amiga”, é muito útil para quem os nunca teve no sítio. Mas também para os restantes que dizem o que pensam o que, fazendo as contas, até é uma coisa boa, principalmente porque estando debaixo de fogo social hoje, amanhã poderão sempre sair à rua sem temer represálias de maior.

Lembro com alguma saudade as grandes amizades que fiz depois de uma cena de porrada ou a continuação do silêncio a que votei um número de infelizes e que perdurará até ao final da minha e deles (reles) existência.
Mas quem nunca andou à tareia, como a maior parte dos millennials, não vai conseguir apreender as técnicas de luta mais básicas, ou seja, acertar um murro, evitar outro ou dar à sola.

Problema: Temo por toda essa geração.

Caso 4 – o confronto de um olhar

Imagem Huffington Post

Aqui é que tudo se confunde. Andamos há demasiados anos a olhar para baixo, para o que temos na mão. E se no caso masculino isso sempre foi uma postura, porque sim, no caso feminino tem contribuído para maleitas físicas com especial localização na coluna e pescoço, ambos já bastante mal tratados pelo peso que as malas transportam e pelo tacão fino ou grosso que a moda obriga.

Toda a gente foge do olhar de alguém. O telemóvel (chamem-lhe smart) tem sido um poderoso aliado neste alheamento social que, mais uma vez, caiu que nem uma ginja para os menos atrevidos ou de mal na própria pele. A ausência de uma rede social vai obrigar-nos a levantar a cabeça e olhar em frente, ou seja, a recuperar o status de homo erectus… em todas as suas vertentes…, pois o mundo real é fantástico com pessoas realmente aprazíveis e que, nos últimos anos, nos têm passado ao lado.

Este é o maior dos desafios, olhar sem filtros para quem se senta à nossa frente num autocarro, quem se cruza no caminho, quem nos atende num supermercado. Vamos, pasme-se, ter de comunicar verbalmente, recuperando a cortesia e boa educação de outrora. Um sorriso e um “obrigado” bem exclamado farão milagres e poderão inverter a pirâmide da natalidade.

Problema: levantar a cabeça sem sentir uma dor aguda no pescoço.

Portanto, e concluindo este rápido pensamento sobre o colapso do Facebook e o seu anunciado desaparecimento, podemos olhar o futuro com optimismo, com mais força e dinâmica pessoal, agarrando as oportunidades que a interacção física proporciona, abraçando literalmente quem encontramos na rua, conversar com quem divide a mesa sem ser por emojis e frases feitas.

Enfim, o mundo voltará a ter quatro estações, daremos menos valor e importância a quem não a merece (governantes, futebolistas, vedetas e até essa coisa chamada de influenciadores sociais), vamos perceber que vai chover por causa da nuvem que se aproxima e não pelo aviso da App e, pasme-se, vamos exercitar as cordas vocais. Uma evolução, portanto.

Mas, como a história recente nos ensinou, e quem vem do Mirc ou do Hi5 (noutros países são os Orkuts e semelhantes) sabe bem que quando um rei morre coroa-se imediatamente outro rei. Vero?

 

Ler que vale a pena:

O post do Mark na conta pessoal.

A entrevista que o Mark deu à Wired sobre o drama.

PS: o Guia de Sobrevivência que o Paulo Matos escreveu hoje na Exame Informática pode ajudar muito quem está com medo de ligar a rede ou, um pouco menos recente mas também na mouche, o artigo que o Pedro Simões escreveu no blogue dos anos 2017/18. Também há artigos no Aberto até de madrugada com as ordens do Carlos Martins e, se vasculharmos, um pouquito, muitas achas que contribuem diariamente para a informação especializada que raramente é tratada por influencers ou tubers, a malta que está na moda.

Para quem quiser saber mais:

https://www.theguardian.com/news/2018/mar/20/facebook-data-cambridge-analytica-sandy-parakilas

https://www.cnbc.com/2014/04/14/a-world-without-facebook-will-it-happen.html

https://www.vero.co

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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