Qual o paralelismo entre a sobrancelha unificada da Frida Khalo e toda a colecção de smartphones para 2018?


Antes de apontá-la, permitam-me uma ligeira correcção: não é toda a colecção mas quase toda a colecção, pois existem algumas marcas que optaram pelo design tradicional, rectilíneo, em suma, clássico da parte superior do ecrã.

O que me fez escrever este desabafo é a adjectivação que alguns analistas portugueses – que escrevem sobre tecnologia – usam para descrever o recorte no ecrã, uma simples aba, que foi exibida pela primeira vez no iPhone X e que agora surge em (quase) todos os novos lançamentos:

Chamam-lhe “monocelha”.

Por amor da Santa, “monocelha”? Mas acaso sabem o que isso significa? Com muito boa vontade, o que se entende por “monocelha” é real e existe, de facto, no rosto humano. Designa a confluência das sobrancelhas, ou seja, o crescimento do pelo na glabela.

Frida Kahlo e o notch

A glabela, espaço entre estes dois segmentos capilares, não é incomum na espécie humana e até há quem lhe esteja imediatamente associada, quase como se de uma marca registada se tratasse: a pintora Frida Kahlo sempre se retratou com a dita “monocelha” muito pronunciada mas chamava-lhe Sinofris, um termo bem mais apelativo e correcto para uma simples hipertrofia.

Se a dita “monocelha”, adaptada do brasileiro ao português sem qualquer tipo de acordo, é uma fusão entre dois tufos de pelos, convém tentar saber do que estamos a falar. Em primeiro lugar, e cientificamente, trata-se uma patologia comum da Síndrome de Cornélia de Lange, em que se regista uma hiperplasia da porção medial dos supercílios.

Existem mais designações para supercílio, das quais destaco sobreolho ou mesmo a democratizada sobrancelha, e é devido a esta que dei com o busílis da questão. É que sabemos que estes tufos de pelo servem para proteger os olhos do suor que corre da testa. É essa a sua única função.

Entre o olho e o tufo descrito, existe outro conjunto de pelos, estes mais grossos e colocados em forma de franja protectora e que se designam por pestanas mas que também podem, muita atenção, ser tratados por cílios ou…. celhos!

Ora cá está, celho!

Descoberta a raiz, vou tentar entender como se chega à “monocelha”.

É que um celho é uma simples pestana (um conjunto protege o olho do pó e insectos, entre outras coisas) e, portanto, está um nível abaixo da sinofris (que se situa entre as sobrancelhas). Estas fazem sombra aos olhos e servem como esponja, papeis diferentes com espessuras diferentes.

Por tudo isto, chego à mesma conclusão que me fez ir estudar a matéria: a utilização inadequada de “monocelha” que, inclusive, é vocábulo que não existe na ortografia portuguesa.

Mais vale descrever este simples recorte no ecrã como aba, contorno, feitio, desenho, configuração, talhe, modelo ou corte. Em dúvida, notch também serve e é internacional.

Deixem-se de FridaKalhadas, por favor.

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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