A Huawei, ao potenciar o cruzamento de um ficheiro monocromático com outro a cores para conseguir uma melhor qualidade de imagem, fez talvez o que não estava nos planos: uma espectacular e imbatível câmara fotográfica para fotografias a preto e branco!

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Em apenas três anos, uma marca chinesa chega ao podium dos fabricantes, devido a uma política de marketing muito agressiva aliada à perfeita noção do que o mercado procura: design, qualidade de construção, imagem e rapidez de operação. Tudo isto está presente nos mais recentes topos da Huawei (gama P, gama Mate e no belo Mate S), mas também encontramos a excelência na aventura Google (Nexus 6P), como na aplicação dos ensinamentos na sub-marca Honor.

ler ensaio Huawei Mate 8     ler ensaio Huawei P8
ler ensaio Huawei Mate S     ler ensaio Huawei G8

Mas não é só o dinheiro que permite grandes aventuras em segmentos complexos (Huawei MateBook), como a escolha de uma equipa de designers com grande reputação (e curriculum), a aposta nos grandes eventos em nome próprio que garantem um impacto global (e brutal) imediato, e a noção perfeita de quais os canais ideais para fazer chegar a informação (e consequentemente o produto) ao consumidor.

Sim, chegar ao terceiro lugar do podium deu trabalho, mas sabemos que (como na Formula 1), uma coisa é chegar, outra ultrapassar. Terá a Huawei capacidade para vencer os seus mais directos rivais, como a Samsung e a Apple? O sucesso comercial do P9 será um precioso indicador.

Como em tudo, a concorrência faz milagres pelo consumidor. E este avanço da Huawei obrigou a uma reacção das marcas de topo. E agora, será que o P9 consegue desequilibrar a balança, oferecendo algo inovador por um preço menos alto que os concorrentes mais directos?

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Se o P8 foi um sucesso junto dos consumidores que procuram um terminal bonito mas também eficaz, o P9 tem algo que o torna muito diferente da concorrência (o Honor 6Plus e o anunciado V8 são da casa): uma câmara com dupla objectiva que tem feito correr muita tinta. Podem questionar: e o novo LG G5, não tem também uma solução dupla? Sim, tem, mas é muito diferente, pois apostaram numa objectiva standard e numa segunda Grande Angular enquanto a solução da Huawei preferiu outro caminho. Mas já lá vamos.

Antes, espaço para admirar o smartphone: esguio, muito bem acabado, com a dupla objectiva perfeitamente incluída no corpo traseiro, visualmente reforçada por uma barra de cor diferente (existem várias opções), mantem o já característico sensor biométrico que está ainda mais veloz e que, para além de memorizar várias impressões digitais (do “dono” e dos convidados) tem outras funções já conhecidas nos mais recentes modelos da marca, como o puxar, ver e apagar notificações, passar fotografias e até mesmo servir como obturador fotográfico. Um mimo tecnológico com que a Huawei bate o pé a toda a concorrência.

Os botões físicos estão bem divididos e colocados e o On/off tem uma ligeira rugosidade muito útil para, com o tacto, sabermos imediatamente qual dos botões tocamos. A gaveta para o nanoSIM e microSD está colocada no outro extremo.

Na parte inferior encontramos a coluna, a ficha 3,5mm e, atenção, o conector USB tipo C, uma novidade nos Huawei (à excepção do Nexus 6P). Se faz sentido? Faria se servisse para, por exemplo, recarregar de forma rápida a bateria, o que ainda não acontece. É mais um “statement” do que propriamente uma vantagem (aliás, há desvantagens, pois obriga a andar com mais um cabo se transportamos mais que um equipamento).

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A colocação da ficha 3,5mm na base não me agrada, mas pelos vistos sou dos poucos que se sente afectado por este tipo de escolha. A Huawei optou novamente por uma única coluna, solução que continuo a preterir em relação a qualquer smartphone que opte por duas para conseguir uma certa estereofonia (mais uma vez, o Nexus 6P surge como um exemplo). Mesmo assim, tem bom som, definido e com algum “punch”, mas não evita que todo o esforço técnico vá por água abaixo quando agarro o P9 com ambas as mãos e de forma horizontal, pois o meu polegar cobre na íntegra a grelha sonora. Este problema afecta todos os smartphones que apresentam este form factor, e não há nada a fazer a não ser ir-me “queixando”.

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O ecrã de 5.2” IPS FHD (1,920 x 1,080) apresenta uma densidade de 423 ppi e tem curvatura 2,5D em vidro reforçado Gorilla Glass IV, o mesmo que cobre a secção das duas objectivas principais. O mais recente e poderoso processador da casa, Kirin 955 com oito núcleos (dividido por 4 x 2.5GHz e 4 x 1.8GHz) é alimentado por 3GB de RAM. Super fluído e eficaz, torna a operação muito rápida em todos os quadrantes. Os 32GB de capacidade interna (existem versões 4/64) podem ser aumentados com cartão microSD com até 128GB, o que chega e sobeja se também tivermos em conta as muitas contas na Cloud que já possuímos.

Este conjunto processador/RAM, que já tinha dado provas no ensaio que fiz ao recente Huawei Mate 8, é a escolha lógica para este P9 e garante um processamento fotográfico e vídeo quase imaculado. Sim, quase. Mas já lá vamos.

Para terminar esta secção mais técnica, de salientar que o P9 vem equipado com o Android 6.0 Marshmallow “vestido” pelo já conhecido Emotion UI na versão 4.1 que, quanto a mim, já merecia uma renovação profunda. Podemos personalizar o nosso P9 optando por um dos muitos temas, desde divertidos a sofisticados e com ícones próprios. De qualquer forma, as maiores novidades do Marshmallow (com destaque óbvio para a secção das notificações, que podemos escolher ver no ecrã à medida que surgem por exemplo) são bem visíveis.

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A Huawei mantém o toque para abrir funções com os nós dos dedos (um C abre a câmara, um M a música, o W a meteorologia, etc), para além de permitir edição fotográfica (desenhar um coração envolvendo uma pessoa, por exemplo), entre outras acções.

Este P9, à semelhança dos recentes Huawei, tem características técnicas que fazem dele um perfeito gravador de áudio, principalmente para registar entrevistas. Podemos inclusive escolher o tipo de dinâmica de gravação, apontando-o para um interlocutor ou vários em distintos pontos numa sala.

Existem aplicações nativas interessantes, como o Phone Manager (que limpa “lixo” e optimiza o desempenho) e o tão em voga “Health”, um pedómetro com funções de monitorização pessoal que deixa em casa a banda fitness que se comprou há pouco tempo.

Outro destaque, muito merecido, tem de ir para a bateria de 3000mAh. É uma capacidade interessante para um smartphone tão esguio (6.95mm) e sem curvatura na traseira (como o anterior Mate S mesmo com uma bateria mais fraca). Consegue chegar ao fim de um dia de esforço continuado e com tudo ligado (notificações, redes sociais, conversa e alguns vídeos).

As 144 g do P9 têm no corpo unibody de alumínio a sua razão, com um acabamento (no caso da minha unidade de teste) em Titanium Grey cujo tratamento até reflecte um ligeiro tom lilás sob um certo ângulo de forte sol. Nada de dramático para os mais machos!

E, finalmente, a câmara!

Pois é esta a grande novidade da Huawei, uma dupla câmara com tecnologia IMAGEsmart 5.0 e uma assinatura que está a dar azo a muita discussão. Em primeiro lugar, apresento os sensores: são dois Sony IMX286, cada um com 12MP, um deles monocromático, outro RGB. Então e a Leica, perguntam. Pois que para além de ajudar ao algoritmo, trabalhou a longitude focal (27mm) e as lentes com abertura f/2.2. O tamanho do pixel é 1,25 µm. Estes dois sensores têm um papel muito importante para a qualidade que o P9 apresenta: enquanto o RGB regista a imagem (de forma tradicional), o monocromático captura a informação da profundidade de um ponto a outro. Depois, o famoso algoritmo trata a luz e o contraste monocromático para dar mais vivacidade à qualidade final da foto composta.

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Para além destas características, o P9 apresenta um autofoco híbrido por detecção de fase, duplo flash LED de duplo tom, detecção de sorriso, modo panorâmico, o muito especial HDR, modo Profissional (Pro). Não filma a 4K, mas em resolução 1080p/60fps ou 720p/120fps (para câmara lenta). Também não tem estabilizador digital de imagem ao contrário de adversários directos.

Com tanto foco na dupla câmara, quase que nos esquecemos da objectiva frontal que tem um muito bom sensor de 8MP e lente com abertura f/2.4. Pode gravar vídeos em FHD para quem desejar postar selfies mais, digamos, animadas e uma amplitude alargada para incluir mais amigos no plano.

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Quando entramos em modo câmara, a facilidade de utilização é ponto de honra: com o dedo, puxamos da esquerda para a direita o menu MODOS: Lapso de tempo, Panorama, Vídeo, Foto, Câmara lenta, Supernoite, HDR, Monocromático, Marca de água, Pintura de luz, Embelezar (vídeo) e Embelezar (foto).

Da direita para a esquerda, surge o menu Definições, onde podemos escolher vários parâmetros, desde o tamanho e qualidade do ficheiro, grelha da câmara, controlos áudio, entre diversos ajustes.

Mas o menu mais interessante é o que se consegue descobrir puxando com o dedo de baixo para cima, onde um pequeno segmento branco está estacionado: é desta forma que entramos no glorioso menu PRO onde podemos escolher todos os parâmetros de forma manual: abertura do diafragma, ISO, velocidade de obturação, modo EV, modo de foco (AF-S / AF-C e MF) e equilíbrio de brancos.

Contudo, o badalado efeito bokeh (foque / desfoque da profundidade de campo de F0.95 a F16) é apenas acessível através do modo automático, tendo ao lado um conjunto de filtros automáticos que, sinceramente, pouco acrescentam.

Este “gimmick” permite fazer coisas giras, mas nota-se bastante que é digital. O truque está em conseguir o efeito da forma mais natural possível e o conselho é simples: “não abusar”. De qualquer forma, e ultrapassando as críticas que qualquer fotógrafo entusiasta aponta, é um modo inovador que vai, com toda a certeza, fazer com que os utilizadores que geralmente usam o modo automático, se possam entreter e até brilhar, brincando simplesmente com a abertura e percebendo, de forma simples, como isso pode mudar o dramatismo de um “boneco”.

Passemos à objectiva monocromática (a da esquerda) e a razão da sua existência. Sou do tempo das câmaras analógicas e até tive uma excelente SLR, a Canon 5D, que me ajudou a compreender muitas coisas, uma das mais importantes, a qualidade “clássica” que conseguia obter se fotografasse com os rolos preto e branco da saudosa Ilford. Como qualquer pessoa que os experimentou, fiquei viciado e transportava sempre uma enorme quantidade de rolos (aprendi como montá-los e desmontá-los aquando no Curso de Cinema) com duas, quatro, 12 chapas cada um. Era um luxo comprar rolos e os Ilford levavam-me grande parte do recheio da carteira. Oh, mas se valia a pena.

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Toda esta história para vos dizer que a Huawei, ao potenciar o cruzamento de um ficheiro monocromático com outro a cores para conseguir uma melhor qualidade de imagem, fez talvez o que não estava nos planos: uma espectacular e imbatível câmara fotográfica para fotografias a preto e branco! Mas quando digo espectacular, acreditem, é ver para crer. O equilíbrio geral, a delicadeza das nuances que as camadas de sombras ou reflexos traduzem, os contrastes muito bem definidos, em suma, o tratamento superiormente conseguido, deixam-me realmente entusiasmado.

Mas também tira fotos a cores, não é? Sim. E ficam muito boas!

O P9 tem muito para espremer: por exemplo, o modo Super Noite, que obriga ao uso de um tripé, abre o diafragma durante 30 segundos para captar o máximo de luz possível. E o resultado compensa. O Panorama consegue tratar a maior parte do movimento que capta com este resultado acima da média.

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E que tal o modo Documentos? É realmente fantástico e muito útil para quem vai a eventos, apresentações, exposições. Estão a ver de lado o ecrã onde são exibidos os resultados do primeiro trimestre? Não há qualquer problema: tira-se a foto, o P9 (esta função está presente nos mais recentes Huawei de topo) faz magia e temos depois a possibilidade de, com quatro eixos, endireitarmos o que estava torto para ficarmos com uma imagem direita e legível.

Depois, o bendito HDR que faz do bom, óptimo. Leiam aqui o que é o High Dynamic Range e perceberão a mais valia que é a inclusão em qualquer câmara, quanto mais telefone com câmara.

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É o P9 o melhor fotográfico?

É um dos melhores. A preto e branco, é certamente o melhor, contudo no resultado global perde para o Samsung S7 (ler ensaio) mas consegue o milagre de ficar à frente do Sony Xperia Z5 (ler ensaio). Também há que mencionar o ostensivo LG V10 (ensaio) e o muito especial LG G4 que me ficou na retina (ler ensaio) e cujo preço estará bem mais atraente nesta altura do campeonato. Não me perguntem pelo LG G5, pois ainda não me passou pelas mãos para poder ter a noção do que também este smartphone com dupla objectiva pode fazer.

A grande vantagem do P9 é ter um preço mais baixo que os equipamentos mencionados e, por isso, conseguir combatê-los ombro a ombro. Vou ser sincero: os resultados fotográficos são óptimos em todos estes equipamentos, principalmente porque estamos a falar de smartphones e não de câmaras compactas (aliás, segmento que vai desaparecer muito brevemente) e as diferenças pouco notórias a olho nu. Podemos gostar mais deste ou daquele neste ou naquele quadrante, mas a apontar o melhor de todos, porque neste tipo de coisas temos de equacionar todos os pontos, teria de optar pelo S7 que faz um brilharete em todas as condições, enquanto o Z5 é imbatível em situações de fraca (ou nenhuma) luz.

O Huawei P9 é uma cartada importante para as ambições da marca, pois apela aos sentidos de um target específico que gosta de ter o smartphone do momento (ou da moda) e consegue encaixar muita tecnologia e qualidade num dos mais finos e bem construídos equipamentos da actualidade.

O “factor dupla objectiva” está a gerar muita expectativa e, para quem gosta deste tipo de particularidades, a assinatura Leica é, obviamente, importante (mesmo com Summarit por baixo) e o marketing está a fazer o seu trabalho. Não tenho dúvidas que o P9 será dos mais desejáveis smartphones de 2016, mas o preço é 100€ mais alto do que deveria. Se a Huawei conseguisse colocar a nova coqueluche abaixo dos 500€, teria certamente o maior sucesso da sua história.

Rápido, bonito, bem construído, o P9 apresenta um conceito (ainda) original e que deverá ser replicado por muitos equipamentos futuros. Tem uma excelente câmara fotográfica que tira os mais esbeltos retratos a preto e branco, mas a filmagem em vídeo (apenas 1080p e sem estabilização) sabe a pouco. Rápido e competente, tem o tamanho certo para a maior parte dos utilizadores que sabem tirar partido do potencial de um equipamento muito equilibrado. O preço pode travar o ímpeto de muitos consumidores.

 

VER FOTOS EM RESOLUÇÃO ORIGINAL

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http://olhares.sapo.pt/x5_p91b-foto7958567.html

http://olhares.sapo.pt/x5_p9_2-foto7958561.html

http://olhares.sapo.pt/x5_p9_4-foto7958565.html

 

PVP: 599€ (versão 3/32)

Equipamento gentilmente cedido para ensaio pela Huawei

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João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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