NWZ-A15 c

Desde que fui apresentado à nova norma Hi Res (High Resolution Audio), tanto em Londres como em Noordwijk, que confessei o meu deslumbre pelo pulo qualitativo que se deu em relação à massificada e medíocre qualidade dos ficheiros MP3. Finalmente, prometiam-me uma reprodução fidedigna ao original, pelo menos, ao que quem fez e produziu a música ouviu horas a fio num estúdio profissional. E isto, devido à minha anterior vida enquanto músico que passou anos a desejar e procurar a melhor qualidade possível, pagando um preço demasiado alto (em todos os sentidos), tem uma importância extraordinária.

Esta é uma questão que não afecta a maior parte dos consumidores do hit fácil e momentâneo, que até é ouvido aos berros através de uma pseudo-coluna monofónica de um smartphone. Confessem: quantas vezes por dia são incomodados por esse horrífico som transportado por um qualquer jovem que se julga dono do mundo? O ficheiro no formato MP3 (escuso-me a grandes explicações técnicas, mas vale a pena googlar) espreme tanto “a música” para ocupar o menor espaço possível em disco que retira a “alma” sonora, o famoso “quentinho”, o tal arredondamento do som. E como o faz? cortando os extremos! Tudo o que fique acima ou abaixo de uma determinada frequência, pura e simplesmente desaparece. E, pelos vistos, pouca gente se queixa. A mais recente geração, que nasceu com phones de fraca qualidade embutidos nos ouvidos, não imagina o que perde. A não ser que tenha um progenitor “chato” que ainda ouça vinil ou tenha preferido gastar um BMW na aparelhagem lá de casa. Ou até pelo amigo que recentemente descobriu esse oásis… porque quer ser DJ. Felizmente, o Hi-Res pode ajudar a mudar esta realidade, desde que os preços continuem a baixar e os equipamentos a surgir nos pontos de venda. Mas vai ser difícil, percebo, e no final do dia, os clientes serão pessoas da minha geração em busca do Santo Graal perdido desde o CD.

A Sony, mais uma vez, “chegou-se à frente” (a história repete-se, depois do DAT, MiniDisc, Blu-Ray…) e é o porta estandarte desta, se tudo correr bem, nova fórmula.

sony W A15

O novo Sony Walkman (sub-brad mítico da marca) NWZ-A15 é o modelo de entrada neste novo mundo HR, muito leve com dimensões reduzidas (44 x 109 x 9mm), apresentando um pequeno ecrã LCD 320 x 240 (QVGA) com 5,6cm e cores muito definidas, sendo mesmo excelente sob luz solar. Mas será que a sua qualidade justifica a compra (mesmo assim não é barato) e faça esquecer os atributos musicais dos todo-poderosos smartphones (e se forem Xperia, também assinados com o logotipo walkman)?

Fisicamente, o NWZ-A15 transborda qualidade. Corpo em alumínio, ecrã que ocupa mais de metade do painel frontal, um comando central de formato clássico (tipo setas direccionais e Enter), duas teclas multi-funcionais por baixo do ecrã (quase invisíveis) e, do lado direito, o volume, o botão “hold” e a entrada para cartão microSD. A base apresenta os pontos menos bons: a entrada mini-jack 3,5mm (que não entendo porque não está no topo) e uma incompreensível ficha para um cabo próprio da marca e já presente noutros equipamentos anteriores, quando tudo converge para a normalização microUSB. Esta opção obriga ao transporte de mais um cabo com os inevitáveis esquecimentos. O lado positivo é sabermos que uma carga aguenta aproximadamente 30 horas de reprodução e que podemos transportar este micro-leitor para qualquer lado, mesmo no bolso de um polo ou camisa pois pesa apenas 66 g!!!

O ecrã tem qualidade mais que suficiente para reproduzir JPEGs e vídeos, muito embora só entenda este plus se me apetecer ver o vídeoclip da música em questão. Mas é perfeito para se ir lendo as letras de cada tema numa espécie de formato karaoke. Contudo, temos de fazer o download dos ficheiros e seleccionar a função e todos estes passos obrigam a um constante dedilhar das teclas de função. Adivinharam, o ecrã não é táctil…

Excelente é o rádio FM, com busca e memorização automática das estações, com uma qualidade invulgar que me fez, confesso, ouvir mais horas de emissão em algumas tardes do que nos últimos anos. E sim, como é fácil o emparelhamento por NFC ou bluetooth (ou AptX), ligá-lo às colunas portáteis que chegavam (e infelizmente iam) para ensaio tornou-se um vício. Mas, infelizmente, o ecrã mostra a frequência mas não o nome da estação, o que é limitativo. A reprodução de Podcasts obriga a um download dos ditos. Faz falta um browser simples e uma ligação wi-fi para tudo ser perfeito e desobrigar à ligação ao PC através do cabo (transferência da dados e carregador). Outra função, denominada Canais SensMe é muito engraçada, pois através de um algoritmo, entende as nossas músicas de acordo com o seu género e possibilita a escolha de uma espécie de lista pré-programada e aleatória, como música para ouvir à noite (Meia-Noite) ou uma alternativa mais “Ligeira”.

Sony W conjunto

Na apresentação original londrina, um dos 200 jornalistas presentes, alemão, questionou o tamanho de cada ficheiro, pois se um MP3 tem 10MB (e estamos a falar do máximo qualitativo), um HR tem 10 vezes mais, ou seja, cada música chega sem esforço aos 100MB. O problema é que seria impossível ouvir Hi-Res através do iPhone, tanto por uma questão de software como de hardware. Ora se isto demonstra que até os jornalistas “dedicados” se podem equivocar nas funções de cada aparelho, e não entenderam bem (pelo menos à altura) do que se estava a falar e a experimentar, como se pode vender todo um novo formato ao utilizador final, tendo em conta estas “pequenas” complicações? A Sony tem a resposta: 16GB internos no NWZ-A15 que podemos aumentar com cartão microSD com até 128GB. Mesmo a 1GB cada disco, já podemos ter uma colecção dos nossos preferidos com uma exímia qualidade de reprodução. E essa é a verdadeira alma deste Walkman que reproduz, sem fazer algum tipo de compressão, ficheiros FLAC, AIFF e ALAC. Para toda esta informação ser tratada de forma linear, a Sony equipou o NWZ-A15 com o seu amplificador S-Master HX que reduz o hiss (sopro ruidoso) provocado pelas frequências mais altas. É uma grande diferença para dois ou três smartphones topo de gama que reproduzem sem escalonamento prévio este tipo de ficheiros, e em que se nota este tipo de ruído (por exemplo, no Xperia Z2). Logicamente que este Walkman também reproduz os formatos mais corriqueiros, como WAV, WMA, AAC e HE-AAC.

Por uma vez, e pode ser a última, o mercado pode escolher qualidade em vez de conveniência ou preço

Tecnologias inclusas, como a ClearAudio+, DSEE HX, assim como o já citado amplificador S-Master HX, estão presentes para “limpar”, melhorar e encorpar todos os sons para conseguir uma taxa de bits de áudio de alta resolução (mais de 24 bits) e frequências alargadas (22 kHz e superiores). A diferença para a qualidade de um CD (já por si muito superior ao tradicional MP3) é, bem perceptível no quadro abaixo, bem notória.

HR gama freq

A Sony enviou este leitor para ensaio juntamente com os auscultadores MDR-1A, preparados para lidar com o resultado dos ficheiros de alta resolução. O casamento não podia ser mais perfeito, pois estes 1A possibilitam, efectivamente, perceber a enorme diferença entre os ficheiros que vêm instalados de raíz, em FLAC não comprimido, e os melhores MP3 a 320kbs que possuo. Não são necessárias explicações de pormenor, a diferença ouve-se e sente-se. Os graves apresentam um imenso corpo garantindo uma envolvência extraordinária com o ouvinte. Os médios são mais progressivos, sem aquele ataque repentino típico da compressão e os agudos, toda uma gama que já não ouvia a algum tempo, enriquecem sobremaneira qualquer tema. A separação de canais é mais notória, assim como conseguimos perceber, numa orquestra, onde estão colocados os músicos e instrumentos. Essa sensação foi-me garantida na Holanda, mas falamos de preços muito mais extremos. A grande vantagem deste set que a Sony colocou à venda é, mesmo tratando-se de algum dinheiro, ser comportável. Juntos tocam nos 330€, bem mais em conta que um iPhone ou Edge que nunca conseguirão reproduzir este tipo de resultados. Outra vantagem, com “culpa” do amplificador S-Master HX, é o melhor tratamento digital dos próprios ficheiros MP3, melhorando a sua qualidade em reprodução.

sony mdr-10c

Se um dos pontos negativos é a escolha de um cabo próprio em vez de um USB, pelo menos temos a vantagem de só ser necessário recarregar o A15 de 30 em 30 horas. Em suma, é um produto de entrada de gama que pode parecer caro, e até é, para quem nem entende a sua função. Mas para todos os melómanos que andam por aí, este é o conjunto mais acessível para se conseguir, novamente, ouvir todas as nuances de uma música, não apenas o que é permitido pelo MP3. Por uma vez, e pode ser a última, o mercado pode escolher qualidade em vez de conveniência ou preço. Este leitor, garanto-vos, faz crescer um sorriso de orelha a orelha. Experimentem!

 

PVP:

NWZ-A15 199€

MDR-1A 129€

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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